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	<title>Luciane Gellermann, autor em Instituto NTI de Psicanálise</title>
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	<description>Site do Instituto NTI de Psicanálise</description>
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	<title>Luciane Gellermann, autor em Instituto NTI de Psicanálise</title>
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		<title>O vazio que a gente tenta preencher</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luciane Gellermann]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2026 17:51:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Traumas e Bloqueios]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Compramos, guardamos, colecionamos, repetimos. Talvez alguns dos sintomas do nosso tempo estejam justamente na dificuldade de suportar aquilo que falta. [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://ntipsicanalise.com/2026/09/02/o-vazio-que-a-gente-tenta-preencher/">O vazio que a gente tenta preencher</a> aparece primeiro em <a href="https://ntipsicanalise.com">Instituto NTI de Psicanálise</a>.</p>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Compramos, guardamos, colecionamos, repetimos. Talvez alguns dos sintomas do nosso tempo estejam justamente na dificuldade de suportar aquilo que falta.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tem coisa que a gente compra porque precisa. Tem coisa que compra porque gosta. Tem aquela coleção que começou meio por acaso e, quando vimos, já ocupava uma estante inteira. Nada demais. Mas há momentos em que a relação com os objetos muda de lugar. Já não se trata exatamente de gostar, querer ou precisar. Surge uma urgência. É preciso ter mais um, guardar mais um, completar mais uma série, comprar mais uma coisa, como se aquele objeto prometesse algo que, curiosamente, nunca consegue cumprir por muito tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A compra chega, a peça finalmente entra para a coleção, a gaveta fecha cheia e vem aquele alívio. Nossa, que bom. Até que passa. E talvez seja justamente o que acontece depois desse alívio que mereça nossa atenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem todo sofrimento consegue virar palavra. Algumas experiências chegam cedo demais, doem demais ou simplesmente não encontram recursos psíquicos para serem contadas. E aquilo que não conseguimos contar não necessariamente desaparece. Às vezes, muda de endereço e vai parar no gesto, na repetição, no objeto, no excesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos um tempo em que tudo parece correr mais rápido do que a própria experiência psíquica consegue acompanhar. A escuta perde espaço para a urgência, a palavra para a imagem e o tempo de elaboração é atropelado pela pressa de apagar a dor. Quando o sofrimento não encontra tradução, o ato pode tomar a frente como uma resposta possível, ainda que precária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente aí que um fenômeno aparentemente distante, como o dos bebês reborn, pode nos emprestar uma pergunta muito maior: <strong>o que fazemos quando não conseguimos representar psiquicamente aquilo que nos falta?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando o objeto começa a fazer um trabalho por nós</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um bebê reborn pode ser simplesmente um hobby, um objeto de coleção, uma brincadeira ou uma expressão de afeto. A psicanálise não deveria olhar para um objeto e, a partir dele, fabricar um diagnóstico. O que interessa é compreender que função esse objeto ocupa para aquela pessoa, porque há situações em que ele deixa de representar alguma coisa e passa a tentar ocupar concretamente o lugar dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença parece pequena, mas não é. Uma coisa é um objeto representar uma ausência. Outra é precisar apagá-la. Freud, ao pensar o luto, descreve um processo lento de desligamento do objeto perdido. Quando esse processo encontra obstáculos, a dor pode se deslocar e se cristalizar em formas que tentam conservar aquilo que já não está ali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um objeto também pode ser ponte, ajudando alguém a atravessar uma experiência, dar contorno a uma perda e suportar uma ausência. Winnicott pensou o objeto transicional justamente como algo que auxilia a criança a suportar a ausência materna e, aos poucos, diferenciar seu mundo interno da realidade externa. Para isso, porém, o objeto precisa representar a mãe, e não ser tomado como a própria mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema começa quando ele já não ajuda a elaborar a falta, mas precisa preenchê-la. O gesto se repete, o tempo congela e aquilo que não conseguiu virar palavra passa a ser encenado.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>No lugar da ausência, o excesso</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">E o bebê reborn não está sozinho nessa história. A mesma lógica pode aparecer em armários abarrotados, estantes tomadas por coleções, objetos guardados durante anos e coisas aparentemente sem valor das quais alguém simplesmente não consegue se desfazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No acúmulo compulsivo, podem existir rastros de perdas abruptas, abandonos afetivos ou experiências traumáticas que ficaram sem contorno. Nesses casos, guardar deixa de ser mero desleixo ou mania e pode funcionar como tentativa de impedir que o desamparo volte a bater à porta. É como se cada objeto guardado carregasse silenciosamente a promessa de que, enquanto estiver ali, nada mais poderá ser tirado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há algo muito contemporâneo nessa dificuldade de deixar espaços vazios. Preenchemos a agenda, o silêncio, a casa, o tempo e, às vezes, também aquilo que sequer sabemos que estamos tentando preencher. Só que o objeto tem um pequeno inconveniente: ele termina, enquanto o vazio não necessariamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Só mais um</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em algumas formas de coleção compulsiva, a busca deixa de ser apenas pela peça que falta e passa a funcionar como uma tentativa de organizar, com as mãos, um mundo interno que não encontrou outra forma de organização. A peça chega, traz alívio e por um instante produz a sensação de completude. Só que dura pouco e logo aparece uma nova necessidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse movimento que o desejo começa a ceder lugar à compulsão. O tempo da espera desaparece e entra em cena a urgência de preencher. Cada nova aquisição oferece um alívio fugaz que logo se desfaz, abrindo espaço para a próxima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">André Green oferece uma imagem potente para compreender esse movimento ao falar de uma <strong>“plenitude do nada”</strong>. Não se trata simplesmente de um espaço vazio esperando alguma coisa entrar, mas de um vazio saturado pelo que não pôde ser pensado, representado ou transformado em história. Talvez seja justamente por isso que preencher concretamente nunca seja suficiente: estamos tentando responder com coisas a uma pergunta que não nasceu no mundo das coisas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Temos pressa até para sofrer</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Seria fácil demais, porém, colocar tudo na conta do indivíduo. Há algo da nossa época nisso também. Houve momentos em que os rituais ajudavam a dar contorno à ausência, oferecendo o tempo da dor, do silêncio e da palavra. Cerimônias, gestos e narrativas compartilhadas serviam de amparo para que o sujeito pudesse, aos poucos, se reinscrever no mundo depois de uma perda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, o tempo psíquico parece atropelado pelo relógio da produtividade. Faça seu luto, desde que segunda-feira esteja funcionando normalmente. A ausência precisa ser rapidamente substituída, a tristeza silenciada e o incômodo resolvido. O que antes podia encontrar algum destino no ritual e na elaboração corre o risco de virar protocolo, e aquilo que falta precisa rapidamente ganhar alguma coisa em seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse cenário que consumo, acúmulo e repetição podem nos dizer alguma coisa sobre os sintomas atuais. Não porque comprar seja patológico, colecionar seja necessariamente um sintoma ou todo excesso esconda um trauma. Seria simples demais, e a vida psíquica raramente é. O ponto de atenção aparece quando o objeto deixa de produzir prazer e passa apenas a aliviar, quando aquilo que deveria acompanhar a vida começa, silenciosamente, a ocupar o lugar dela.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Talvez o vazio não precise ser tapado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Passamos boa parte da vida tentando preencher nossos vazios, e talvez uma das coisas mais difíceis seja aceitar que nem todo vazio está pedindo preenchimento. Na leitura de André Green, o negativo não é apenas ausência. Pode existir ali um espaço no qual alguma coisa ainda está por vir, onde a palavra ainda não chegou, embora o afeto já esteja presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente aí que a psicanálise pode oferecer alguma coisa, não arrancando objetos das mãos de ninguém, esvaziando armários ou decretando de fora o significado de uma coleção, mas escutando a função que aquilo ocupa na história daquele sujeito. Às vezes, o gesto compulsivo está fazendo um trabalho que a palavra ainda não conseguiu fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa função começa a ganhar significado, algo pode se movimentar. O objeto sequer precisa desaparecer. O que pode mudar é a obrigação inconsciente de que ele continue fazendo um trabalho impossível: preencher definitivamente aquilo que não pôde ser simbolizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A repetição pode ganhar história, a urgência pode ganhar tempo e o excesso pode encontrar palavra. Talvez seja esse o ponto: nem todo vazio está pedindo uma coisa nova. Alguns estão pedindo uma história e, quando ela finalmente pode ser contada, aquilo que antes precisava ser preenchido talvez possa, enfim, encontrar conforto.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Existe filho preferido? O que a psicanálise responde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luciane Gellermann]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ser mais amado e ocupar um lugar diferente não são a mesma coisa. Um texto sobre preferência entre irmãos, o que a criança escuta e por que isso ainda pesa na vida adulta.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">É uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta. Ela aparece de lado: numa piada de aniversário, num comentário atravessado depois do almoço de domingo, num “você sempre foi a preferida” dito rindo — mas não tão rindo assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No episódio <a href="https://open.spotify.com/episode/1SiBDRJlhXBmLfYGGbFvPB" target="_blank" rel="noopener">Existe Filho Preferido?</a>, do EntreFalos, o Rafael e eu conversamos sobre isso. Quinze minutos não dão conta do assunto, e alguns pontos ficaram pedindo desenvolvimento. Este texto é essa continuação.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Preferência e lugar não são a mesma coisa</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma distinção que costuma aliviar quem a escuta pela primeira vez: uma coisa é ser mais amado; outra, bem diferente, é ocupar um lugar distinto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada filho chega num momento próprio da história de quem o recebe. O primeiro chega numa casa que ainda está aprendendo a ser casa. O segundo chega quando o medo já passou e o cansaço começou. O caçula às vezes chega quando os pais já são outras pessoas. Nenhum deles encontra os mesmos pais, porque os pais também mudaram no caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso produz tratamentos diferentes que não são, necessariamente, quantidades diferentes de amor. Mas a criança não tem como saber disso. Ela mede o que recebe comparando com o que vê o irmão receber — e é dessa conta, feita cedo demais e com dados de menos, que nasce a convicção de ter sido o menos querido.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O que a criança escuta não é o que foi dito</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Frases ditas sem nenhuma intenção podem se fixar por décadas. “Com você foi mais difícil.” “Esse aí puxou o pai.” “A sua irmã sempre foi mais tranquila.” Quem disse muitas vezes não lembra de ter dito. Quem ouviu carrega a frase inteira, com entonação e tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psicanálise não trata essas frases como prova do que aconteceu, e sim como marca do que foi ouvido. A diferença é importante. Não estamos atrás da verdade factual de uma família — estamos atrás do sentido que uma criança deu ao que viveu, porque é esse sentido, e não o fato, que segue organizando a vida adulta.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Por que isso ainda pesa aos quarenta</h3>



<p class="wp-block-paragraph">A rivalidade que começou na sala de casa costuma mudar de endereço sem mudar de forma. Ela reaparece na disputa por reconhecimento no trabalho, na dificuldade de dividir atenção dentro de um casamento, na relação com os próprios filhos — às vezes na tentativa exaustiva de tratar todos exatamente igual, para que ninguém sinta o que se sentiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também aparece do outro lado. Quem foi tratado como o preferido raramente teve vida fácil: costuma carregar culpa, um senso desproporcional de responsabilidade pela felicidade dos pais, e a sensação de que precisa justificar permanentemente o lugar que recebeu sem pedir.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O que se faz com isso</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata de eleger um culpado nem de cobrar reparação de pais que, quase sempre, fizeram o que deram conta de fazer. Também não se trata de concluir que “foi tudo impressão sua” — porque não foi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que muda, quando alguém fala sobre isso com regularidade e com escuta, não é o passado. É a força que ele ainda tem. A frase antiga continua lá, mas para de funcionar como sentença. E aí é possível olhar para os irmãos, para os pais e para si mesma sem que a conta da infância precise ser recalculada a cada encontro de família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É um trabalho sem atalho. Mas é o que permite parar de viver comparando.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Para continuar</h3>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa completa está no episódio <em>Entre o Desejo e o Outro #3 | Existe Filho Preferido?</em>, no <a href="https://open.spotify.com/episode/1SiBDRJlhXBmLfYGGbFvPB" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se alguma parte deste texto tocou em algo que é seu, <a href="https://wa.me/5512996112337" target="_blank" rel="noopener">fale comigo no WhatsApp</a>. A primeira conversa existe justamente para você sentir se faz sentido seguir.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://ntipsicanalise.com/2026/08/27/existe-filho-preferido-psicanalise/">Existe filho preferido? O que a psicanálise responde</a> aparece primeiro em <a href="https://ntipsicanalise.com">Instituto NTI de Psicanálise</a>.</p>
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