“Matei meu pai”: por que a ausência continua ocupando tanto espaço

Existe uma frase que chega ao consultório com uma firmeza quase de sentença: meu pai morreu pra mim. Dita assim, parece um ponto final. A pessoa não quer falar dele, não quer saber, não precisa. O assunto estaria encerrado.

Mas encerrar o assunto não é a mesma coisa que encerrar a história.

Uma coisa é o pai não estar presente. Outra, bem diferente, é essa ausência deixar de existir dentro de quem ficou. E é aí que aparece algo que soa contraditório à primeira vista: algumas ausências ocupam muito mais espaço do que certas presenças.

O vazio que não fica vazio

Quando a gente pensa em ausência, a primeira imagem que vem é a de algo que não está, que não pesa, que não ocupa lugar. Na clínica, acontece o oposto.

O pai que “não existe mais” costuma estar presente em quase tudo. Aparece na maneira como a pessoa reage quando alguém se afasta. Na necessidade de ser escolhida. Na dificuldade de confiar. No medo de depender. E, principalmente, naquela decisão silenciosa de nunca mais precisar de ninguém.

André Green pensou muito sobre isso: existem experiências de ausência que não podem ser verdadeiramente representadas. Não se trata de um espaço vazio esperando para ser preenchido — é um vazio que ganha presença psíquica. Algo que falta, mas cuja falta ocupa tudo.

Por isso a frase “matei meu pai” merece um segundo olhar. Talvez a pessoa não tenha elaborado nada. Talvez tenha apenas parado de falar. E siga vivendo uma vida inteira para provar que não precisa dele — o que é, no fim, uma vida organizada em torno dele.

Silenciar não é a mesma coisa que elaborar

Vale dizer: o silêncio pode ser necessário por um tempo. Nem toda dor está pronta para ser falada, e há momentos em que se afastar é uma escolha lúcida, consciente, legítima.

O problema começa quando não falar deixa de ser uma escolha e passa a ser a única maneira possível de suportar aquela história.

Ferenczi já apontava que o trauma não se define apenas pelo que aconteceu. Ele se agrava quando a experiência não pode ser reconhecida — quando aquilo que alguém viveu é silenciado. A dor enterrada depressa demais não desaparece: ela se organiza por baixo, e passa a dirigir escolhas que a pessoa jura estar fazendo por conta própria.

O inconsciente não trabalha só com o que a gente consegue contar. Ele também se organiza ao redor daquilo que a gente não consegue nomear.

O pai que você carregou para dentro

Aqui há uma distinção que costuma abrir caminho na análise.

Uma coisa é o pai real: um homem vivo, morando na casa dele, lidando com as questões dele. Outra é o pai que você construiu e introjetou — a sua ideia do que é um pai, o que essa figura significa, como ela reverbera nas suas coisas mais banais do dia a dia.

Você pode não ver o primeiro há vinte anos. O segundo continua morando com você.

E é justamente para manter esse segundo fora de vista que a pessoa mobiliza uma série de resistências e movimentos dos quais nem se dá conta. Muitas vezes, quanto mais alguém insiste que o pai morreu, mais está caminhando ao encontro dele.

A repetição pelo avesso

Existe uma versão dessa história que aparece com muita frequência na clínica, sobretudo entre homens que se tornaram pais.

O raciocínio consciente é impecável: meu pai foi ausente, foi duro, foi restritivo — então eu vou ser o oposto. E aí nasce o pai alegrinho, o disponível, o que não deixa o filho sofrer, o permissivo, o amigão.

Só que o extremo oposto tem um preço. Em algum momento, ele transforma o adulto em alguma coisa que não é exatamente o pai daquele filho. Porque a função paterna não é só acolher e ser carinhoso — é também apontar uma direção de mundo, sustentar as regras que orientam a vida, oferecer uma referência de existência possível.

Quando isso não acontece, a ausência se repete de outra forma. E talvez essa segunda versão seja mais cruel que a primeira: no caso do pai que foi embora, ele simplesmente não estava. No caso do pai que fica, ele está no contexto familiar, mas não atua como pai. Ausência enrustida, muito mais difícil de enxergar, de nomear, de tratar.

Se você conversar com esse pai, a sensação dele será oposta. Ele se sente presente, amigo, tudo aquilo que o pai dele não foi. Sem perceber que está ausente exatamente no lugar em que deveria estar.

Há ainda o outro caminho: aquele que sentiu tanto o abandono que não consegue estabelecer vínculo com ninguém — nem com o próprio filho. O medo do laço fala mais alto que o desejo dele.

O pai como posição, não como pessoa

Falamos de pai aqui porque os números pedem: historicamente foi mais permitido aos homens sair, deixar o lar, não registrar o filho. A queixa do pai ausente chega muito ao consultório.

Mas a lógica vale para qualquer figura que ocupe um lugar importante na formação de alguém. É do pai como posição que se trata, não de um homem específico.

E a razão de olhar para isso não é abstrata. As consequências são concretas: dificuldade de construir vínculo, relações que não se sustentam, uma vida vivida para dar conta de algo que nunca foi nomeado. Inclusive a decisão de não ter filhos — que pode ser uma escolha legítima e elaborada, ou pode ser pura evitação disfarçada de escolha.

O detalhe é que sempre existe uma justificativa racional à mão. Sempre. Uma explicação palpável, socialmente aceitável, que faz todo sentido — e que serve, no fundo, para não olhar para a dor real.

Matar o pai, no sentido em que a psicanálise fala

Quando a psicanálise fala em “matar o pai” ou “matar a mãe”, não está falando de romper, cortar, apagar. É uma operação simbólica: retirar do outro o poder de continuar determinando quem você é.

Você reconhece o que veio deles. Honra o que houver para honrar. Compreende a história. E, ao mesmo tempo, tira daquela história o poder de decidir suas relações, seus medos e seus limites.

É um processo de se conhecer o suficiente para perceber que aqueles papéis já foram cumpridos — bem ou mal — e que agora a vida é sua para pegar pela mão.

Falar sobre isso sempre parece melhor do que não falar. O não falar é o que faz as repetições ficarem mais críticas e mais difíceis de trabalhar. “Meu pai foi ausente, e eu penso sobre o que isso fez em mim” é um lugar infinitamente mais habitável do que “meu pai não existe”.

E fica a pergunta, para quem sente que conseguiu matar o pai, a mãe, ou os dois: se somos, em parte, feitos deles — que pedaço de você morreu junto? E onde é que está esse pedaço agora?


Este texto nasceu de uma conversa do EntreFalos, o podcast do Instituto NTI de Psicanálise, apresentado por Rafael Selmikaitis e Luciane Gellermann.

A análise é um espaço para falar daquilo que ficou sem nome. No Instituto NTI o atendimento é online e a primeira conversa é sem compromisso — fale com a gente pelo WhatsApp.

Rolar para cima